Setembro é conhecido mundialmente como o mês da prevenção ao suicídio, a fim de sensibilizar e conscientizar a população sobre o assunto, evidenciando a necessidade de se cuidar da saúde mental.

A primeira medida preventiva é a educação, pois é preciso falar sobre o assunto sem medo ou tabus para compartilhar informações relevantes, saber quais são as principais causas do problema e também identificar formas de ajudar. 

Drª Linda Vieira*, psicóloga do Clude, e Débora Carvalho, assistente social do Clude, explicam que há diversos fatores que podem levar o indivíduo a cometer suicídio. O apoio familiar e a ajuda psicológica são primordiais para trabalhar e desenvolver soluções para identificar problemas e fazer a prevenção.

 

Como surgiu a campanha do setembro amarelo?

O Setembro Amarelo foi criado para conscientizar e informar a população sobre a prevenção ao suicídio, além da importância de se cuidar da saúde mental. “A campanha começou em 1994 com o jovem americano Mike Emme. Ele era considerado um jovem calmo e tranquilo,  e ficou conhecido porque ele tinha um Mustang, pois era bom em mecânica. Um dia, ele foi encontrado, em setembro de 94, sem vida no próprio carro com um bilhete de despedida para os pais. Embora Mike fosse um jovem com aptidões e que se relacionava, havia questões que ele não lidava bem. Ele teve um relacionamento amoroso e não conseguiu lidar com o término”, explica Drª Linda. 

Mesmo o jovem não tendo nenhum indício aparente, cometeu suicídio. Apesar da dor, “os pais dele resolveram distribuir no enterro do jovem, fitas amarelas com um bilhete dizendo que se você tiver a intenção de cometer suicídio, era para compartilhar o bilhete e pedir ajuda. Foram mais ou menos 500 cartões distribuídos e em pouco tempo, o mundo inteiro repassou, e as pessoas começaram a procurar ajuda”, complementa Drª Linda.

Aqui no Brasil o mês de setembro ganhou visibilidade em 2015 para “conscientizar sobre a prevenção, pois existia um grande tabu para se falar de suicídio porque as pessoas ao falarem sobre isso acham que podem desencadear no outro esse comportamento […] O tabu ainda existe, porém, quanto mais se falar e se informar, melhor!”, diz Drª Linda.

É possível dizer que há uma causa específica para o suicídio?

Os sentimentos e sensações são únicos de cada indivíduo, visto que suas histórias e vivências irão influenciar diretamente na sua personalidade e no seu modo de agir. Porém, há fatores que dão indícios, como transtorno depressivo, que pode motivar o suicídio. 

“Durante a adolescência, por exemplo, pode estar relacionado a questão de autoestima e autoafirmação. Também existe a questão do jovem estar sem saber o que fazer e muitas vezes isso abala e o compromete nesse quesito. Às vezes, existem questões em relação a família, ou seja, não dá para presumir que seja uma única causa, pois são vários fatores”, explica Drª Linda.

O suicídio não acontece apenas por algo específico já que há diversas causas que poderão influenciar, mas comportamentos suicidas podem ser identificados através de algumas ações. Segundo Drª Linda, “o que eu considero importante é que as pessoas que estejam em volta uma das outras, que se observem, principalmente os pais, os amigos. É necessário observar o comportamento e não desconsiderar o que está sendo dito, pois o suicídio é uma coisa que as pessoas acabam falando que vão fazer ou que não estão mais com vontade de viver […] As pessoas precisam parar de considerar isso como algo banal ou frescura, levem em consideração e que possam orientar essa pessoa a buscar a ajuda médica”.

Alguns sinais no comportamento devem ser levados a sério. Quais são eles?

O comportamento diferente é o primeiro indício que algo não está bem. Drª Linda explica que “a pessoa fica mais quieta, mais calada, mais isolada e começa a ter comportamentos antissociais e agressivos. Ela pode manifestar as emoções de diversas formas, sendo introvertida ou extrovertida. Uma pessoa extrovertida também pode pensar em suicídio”. 

O corpo também começa a reagir durante esse período, com cansaço, insônia e falta de apetite, ocasionando desconfortos e também acarretando outros problemas de saúde. Portanto, é necessário estar atento a qualquer atitude diferente que a pessoa tenha, observando os sintomas. 

“Além do choro constante, quando uma pessoa chega ao nível de estar tendo ideias e tendências suicidas, do tipo “eu não sirvo para nada”, “eu vou desaparecer” ou “ninguém sentirá minha falta”, ela já está num nível muito grave. A família também tem que procurar ajuda bem antes disso, porém, se eles percebem só na hora, é o momento de procurar um tratamento psicológico ou psiquiátrico”, explica Débora. 

Outra questão muito importante sobre o assunto é a depressão. “A depressão é um dos indícios que mais leva ao suicídio. Se a pessoa está com um sintoma ou demonstrações de depressão já tem que procurar ajuda. […] Nós damos sinais de que alguma coisa não está boa”, afirma Drª Linda.

“Tristeza é algo momentâneo e situacional, ou seja, por um período ou situação eu me sinto mais triste, mais introspectivo, portanto, é momentâneo. Já a depressão ela vem de episódios com várias circunstâncias e às vezes é de uma tristeza que não passou, que foi acumulando de outras situações. Isso criou um grau de tristeza profunda que leva a pessoa a não querer mais levantar da cama, uma pessoa que só quer dormir. Ainda sim, buscar ajuda nesses casos é importante”, complementa Drª Linda.

O que ocasiona a automutilação?

“A automutilação está associada aos transtornos bipolares e os problemas emocionais também acarretam esse ato. A pessoa quer evitar um sofrimento e ela precisa substituir isso por outra coisa”, explica Drª Linda.

O ato da automutilação é mais comum entre mulheres, e é uma prática viciante, pois dá a sensação que alivia de forma momentânea um outro problema. É preciso observar o comportamento, especialmente dos jovens. Se eles usam muitas roupas, principalmente roupas de manga longa, se há manchas de sangue, marcas de corte nos pulsos e outras partes do corpo, é necessário investigar e fazer o encaminhamento para o psiquiatra. 

Como as pressões sociais podem desencadear tendências suicidas?

Um fator determinante e que afeta tanto jovens como adultos é o bullying. Com a pressão relacionada à aparência, às suas características pessoais, e também a intimidação, a pessoa acaba tendo uma diminuição no autocuidado, torna-se mais vulnerável, acuado e tímido, sendo mais propício a desenvolver transtornos de imagem e a depressão

“Na minha experiência com a saúde mental, existem também muitos casos de doenças incapacitantes em que a pessoa quer tirar a própria vida e começa a adoecer. Então, essa parte de doenças crônicas, a diminuição do autocuidado, do sofrimento no trabalho […] o próprio bullying com os jovens é muito comum”. 

Conseguir um bom emprego, ter estabilidade financeira em pouco tempo e até mesmo uma graduação para melhorar o currículo, são pressões que acarretam diversos problemas e consequências para o desenvolvimento pessoal. Há também fatores como, por exemplo, a descoberta da orientação sexual, que pode causar bloqueios. O jovem ainda não possui maturidade suficiente para entender o que está acontecendo com ele, o que ocasiona traumas relacionados a isso. 

Outra pressão comum é sobre a estética que contribui também para o aumento do suicídio. A aceitação social é muito forte nesse processo, pois o indivíduo acha que precisa representar algo para estar inserido em algum grupo, se encaixar em um padrão, que muitas vezes é inalcançável. Essa influencia de comportamento está muito relacionado com as redes sociais e o conteúdo absorvido, provocando o cyberbullying. Além disso, há os conflitos familiares e outras questões que estão por trás dessas pressões. 

Portanto, irá depender muito das vivências e histórico de vida de cada um, pois acidentes, diagnósticos, lutos ou opressões são alguns fatores que influenciam na concepção de doenças, sendo necessário um profissional especializado para identificar e tratar esses problemas. 

Como lidar com as frustrações?

Devido ao isolamento as emoções estão mais afloradas. “Por isso a gente tem que cuidar dos três pilares da nossa vida, que é a mente, o corpo e a alma. É através do exercício físico, da leitura e da meditação. […] Procure praticar hábitos regulares no dia a dia para amenizar as crises de ansiedade e de agressividade que são fatores de vulnerabilidade”, afirma Débora. 

“Com a pandemia, as pessoas precisam ter mais contato com a família, conviver com a dinâmica dos filhos e eles exigem mais atenção, por exemplo. Muitas pessoas se separaram também por conta da pandemia devido à falta de diálogo […] As pessoas já estavam com ansiedade e depressão, porém, devido a procrastinação, as cobranças e o sedentarismo, houve também ganho de peso e obesidade, por exemplo. Tudo isso já é sintomas de que algo não está certo” afirma Drª Linda.

São emoções que já existiam nas pessoas mas durante a pandemia foram exacerbadas. Portanto, é necessário manter um equilíbrio “porque diante de uma dificuldade, de um imprevisto e de uma situação difícil como essa, a gente precisa ter um melhor equilíbrio emocional para lidar com as adversidades. Imagine: se cada vez que você tenha uma frustração, uma contrariedade, você reage de que forma? Então a estrutura emocional precisa ser trabalhada desde o início”, complementa Drª Linda.

Qual o papel da família na prevenção do suicídio?

O histórico familiar e relações afetivas influenciam muito. O luto, por exemplo, pode fazer com que a pessoa adoeça, fique com uma tristeza profunda e pode fomentar a depressão. São diversas causas que precisam ser tratadas, pois é uma situação é reversível através do tratamento com psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e profissionais da saúde. 

É preciso que a pessoa tenha pilares para auxiliá-la no tratamento, e a família é uma peça importante nisso porque muda toda a dinâmica. “A família precisa estar perto, ter ajuda e um retorno, porque eles também precisarão de um preparo para lidar com essa situação, e saber como falar é importante, pois muitas coisas que verbalizados pode ser prejudicial também”, afirma Débora. 

“Se você estiver vivendo isso é preciso entender que quando for procurar ajuda, o profissional estará pronto, sem julgamentos e críticas, e a pessoa terá um espaço para ser acolhido. A família acaba tendo uma interpretação e nem sempre consegue ajudar com as palavras, sendo que o profissional tem uma visão de fora […] Você precisa entender o que está acontecendo para buscar a ajuda específica”, finaliza Débora. 

Assim como a pessoa com depressão e tendência suicidas precisa de ajuda, a família precisa estar preparada para lidar com essa situação tão difícil. Precisam saber suportar crises e também estar sempre atentos a qualquer comportamento diferente. Por isso, é importante que a família seja orientada e instruída para saber como encarar essa situação. 

Para isso, o papel do assistente social, juntamente com a ajuda psicológica é fundamental para ajudar a pessoa, a fim de prevenir o suicídio. “O assistente social tenta estudar a dinâmica da família para poder criar e estreitar o vínculo de confiança e fazer essa discussão juntamente com uma psicóloga, que é primordial”, diz Débora.

O acolhimento da família através do assistente social e psicólogo é de extrema importância para o tratamento.  “O assistente auxilia a família, o psicólogo vai tentar trabalhar quais são as causas de tudo isso, e é claro que dependerá do grau psicológico da pessoa. Dependendo, será encaminhado para o psiquiatra para acompanhamento da medicação, pois ela será uma alternativa, uma ferramenta para o tratamento. Quando a pessoa não está dando mais conta, ela precisará desses neurotransmissores que ela mesmo não consegue mais produzir, e a medicação entra nesse quesito”, explica  Drª Linda.

Quais tipos de ajuda consigo ter para fazer a prevenção?

Os casos de suicídio são muito preocupantes dentro da saúde pública, ainda mais no contexto brasileiro. A globalização, os impactos negativos das redes sociais e comportamentos destrutivos influenciam no agravamento de transtornos mentais. Por isso, é tão importante falar sobre o assunto, mostrar que há soluções viáveis, que a pessoa precisa buscar uma ajuda e um tratamento para entender o processo de aceitação e mudança.

Como há diversos fatores que levam a pessoa a começar a pensar em suicídio, como a perda de um ente querido, algum transtorno, como a depressão, e até mesmo o bullying, é necessário que a pessoa comece a mudar seus hábitos que poderão auxiliar no tratamento, como a prática de exercícios físicos, se autovalorizar, ter autocuidado, ler um bom livro, são maneiras de buscar recursos que farão total diferença no desenvolvimento e melhora da pessoa. 

O Clude oferece Psicólogo Online, para tratamento e acompanhamento. O ambiente digital é estruturado e preparado para atender pacientes de forma segura e confortável. Você poderá escolher o psicólogo, além de selecionar o melhor horário e dia para suas sessões, para conversar com o profissional e trabalhar sua saúde mental e bem-estar por um preço acessível.

Como fazer a prevenção ao suicídio?

“O tratamento para uma pessoa com comportamento suicida tem que ser um trabalho humanizado, ainda mais com essa conjuntura de pandemia. É necessário tentar elaborar propostas criativas acerca de você preservar os direitos do paciente mas viabilizar as propostas de intervenção que contribuem para esse trabalho”, diz Débora.

É primordial que se busque ajuda psicológica, psiquiátrica e assistencial para amparar uma pessoa que tem tendências suicidas, trabalhando seus propósitos, criando motivações, mas principalmente, que se respeite o tempo de cada um.

Além disso, é necessário que a pessoa evite certos hábitos que podem ser destrutivos, que desencadeiam traumas, confusões e tristezas. É necessário que procure consumir informações e esteja rodeado de coisas motivadoras que dê ânimo para achar uma saída e busque alternativas, filtrando tudo o que está ao seu redor, se atentando aos seus próprios comportamentos, e quando sentir que precisa de ajuda, não deixe de procurá-la.  

*Doutora Linda Vieira, psicóloga do Clude – CRP 06/104660

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